Eugénio da Fonseca – Setúbal «A Caridade é muito mais exigente que a solidariedade»

24-05-2011 19:15

Eugénio da Fonseca – Setúbal
«A Caridade é muito mais exigente que a solidariedade»

Eugénio da Fonseca – Setúbal<br>
«A Caridade é muito mais exigente que a solidariedade»- No meio uma agenda sobrecarregada, e pouco tempo depois de ter sido homenageado com a medalha de Mérito Distrital, Eugénio da Fonseca Presidente da Direcção da Caritas Portuguesa, recebeu amavelmente o Rostos para falar sobre a Caritas, a sua estrutura e sobretudo de como realiza a sua acção social.

A Cáritas é uma organização da Igreja Católica e existe para a promoção da acção social da Igreja dependendo directamente da sua hierarquia «na Igreja há duas formas de organização, uma que depende dos membros da Igreja, ou seja dos seus fiéis e depois existem as organizações do serviço da igreja que dependem da hierarquia, no caso da Caritas Diocesana ela depende dos Bispos, que são a entidade máxima na Diocese» sublinha.

A estrutura da Caritas é internacional e a sua coordenação mundial faz-se a partir do Vaticano, da Santa Sé, através da Caritas Internacional. «Depois em cada país há a Caritas Nacional, que depende da conferência Episcopal e em cada Diocese há a Caritas Diocesana que se ramifica pelas Paróquias, com a designação de Caritas Paroquial, grupos sócio-caritativos, ou outras, que são grupos de acção social ao nível das Paróquias» explicou Eugénio da Fonseca.
Assim, a Cáritas Portuguesa tem apenas como funções articular as Caritas Diocesanas, representar a Caritas a nível internacional, coordenar as emergências e apoiar a formação das pessoas que estão no terreno, «sobretudo apoiar as Caritas Diocesanas nessa missão» referiu- mas não tem qualquer ligação hierárquica directa com as Caritas Diocesanas «eu costumo brincar ao dizer que o Presidente da Caritas Portuguesa não manda nada no Presidente da Cáritas de Setúbal» referiu Eugénio da Fonseca que acumula as duas funções. Cada Cáritas Diocesana dependo do seu Bispo e os responsáveis são nomeadas pelo Bispo «este é um serviço do Bispo» sublinha.

Assistência, promoção humana, desenvolvimento sócio-local e intervenção social
- Vectores orientadores da acção

As acções da Caritas variam de Diocese para Diocese «no país temos vinte Dioceses e forçosamente temos vinte Cáritas que fazem coisas diferentes entre si dependendo das necessidades de cada contexto local» referiu.
Contudo todas elas se orientam por quatro grandes vectores «o primeiro é a assistência, o segundo é promoção humana, o terceiro é o desenvolvimento sócio-local e o quarto é a intervenção social. Um quinto que é transversal a todos estes é a animação Pastoral que é o apoio aos grupos locais para que possam gerar este dinamismo e criar comunhão entre eles» explicou.

«A assistência é a resposta imediata aos problemas. Se quisermos é dar o peixe.
A promoção humana é responder às causas daqueles problemas que estão nas próprias pessoas. Por exemplo, existem pessoas que não têm emprego porque não têm formação profissional, e algumas nem sequer têm formação escolar. Há pessoas que têm dificuldade em gerir o seu orçamento, nós aqui trabalhamos na formação das pessoas, o ensinar a pescar.
Depois o desenvolvimento sócio-local quer dizer que há problemas que residem no local onde as pessoas vivem e que por isso têm já “estigmas”, sendo por isso necessário ajudar a criar condições no local para que as pessoas tenham condições bem-estar.
A intervenção social é aquela em que se identificam as causas, não nas pessoas nem nas localidades mas naquilo a que nós designamos no sistema. Nós temos muitas pessoas pobres porque têm pensões baixas por isso temos que intervir junto das estruturas do Governo e isso faz-se apresentando propostas de política social e económica.
A Caritas apresentou há bem pouco tempo a todos os partidos, um pacote de seis medidas e isto é fazer intervenção social» sublinhou.


Eugénio da Fonseca afirmou que a Caritas Diocesana de Setúbal toca todas estas vertentes «na Caritas de Setúbal só não temos resposta directa aos toxicodependentes, embora trabalhemos com eles, pois a Diocese tem uma estrutura própria para isso, e não temos apoio directo a pessoas portadoras de deficiência pois existe também uma rede muito sólida nessa área.
No campo da assistência, para além de distribuir refeições, temos o apoio às pessoas portadoras de HIV, doentes com SIDA, sem abrigo, às mães adolescentes, aos idosos, com apoio domiciliário e centros de dia, apoio a jovens em situação de risco em que trabalhamos sobretudo com jovens da Bela Vista, do Poceirão e Marateca. Temos creches e ATL´s, temos um centro para crianças em situação de risco, que foi o segundo no país, criado em 1989, pagamos dívidas de água e renda de casa, entre outras» disse.
«Este é o trabalho assistencial, mas há uma parte desta função assistencial que já faz a ligação com a promoção humana. Eu considero que num Jardim de Infância ou num ATL, no contacto com mães adolescentes e no ensino recorrente já entramos na parte da promoção humana» sublinhou.

«Em termos de desenvolvimento sócio-local temos uma resposta no Poceirão com actividades com as pessoas de criação de postos de trabalho e temos sobretudo, em conjunto com outras instituições, o apoio prestado o Bairro da Bela Vista.
A intervenção social é feita através de diversas iniciativa e parcerias como o PEDEPS, a defesa da Arrábida, o Rendimento Social de Inserção, a nossa coordenadora é coordenadora dos sem-abrigo aqui do conselho de Setúbal, tudo isto são formas de fazer intervenção social e depois articulamos com todas as Paróquias porque a resposta de proximidade é dada pelas Paróquias» disse.

Assistência VS assistencialismo
– «Quem fizer (…) [assistencialismo] está a fazer má acção social»

«Nós temos uma forte incidência na assistência, sem desligar, como já referi, da promoção humana, mas é preciso muito cuidado pois existem pessoas estigmatizam muito esta dimensão da acção social» disse o Presidente da Caritas referindo-se às acusações contra a Igreja em ter interesse em manter a assistência para assegurar uma espécie de “clientela”, «esta é uma falsa questão pois muitas vezes fico com a sensação que quando se argumenta nesse sentido é muitas vezes para esconder a falta de vontade para se fazer alguma coisa por alguém. Eu costumo dizer que se nós nos fixamos só na assistência, nós não fazemos assistência, fazemos assistencialismo e isso é na minha opinião negativo pois o assistencialismo gera paternalismos, gera dependências e quem fizer isso está a fazer má acção social. Contudo há etapas da protecção que é devida ás pessoas e que passam pela assistência» afirma.

«Neste momento (…) é demagógico falar em dar canas porque elas não existem».
«Neste momento vivemos no país uma situação em que a economia está totalmente adormecida, e que enquanto ela não voltar a ressuscitar não haverá criação de postos de trabalho por isso numa situação como esta é demagógico falar em dar canas porque elas não existem. Então o que é necessário fazer é manter as pessoas motivadas e preparadas para que amanhã quando se criarem de novo as canas elas tenham força para pegar nelas. Isto faz-se não permitindo que as pessoas gastem as suas energias à procura de alimento para os filhos, sofram porque os filhos têm que deixar de estudar, vivam na angústia de perder a casa, isto é assistência».

Contudo o Presidente da Caritas afirmou que nem sempre a Igreja tem agido de forma a livrar-se dessa acusação pois «em certas ocasiões teve uma fixação muito forte na assistência, ou seja, nem sempre praticando de forma correcta essa assistência. Contudo muitas vezes essa acusação é injusta e ela vem carregada de preconceito em relação à Igreja, há pessoas que fazem essa acusação não por causa da acção da Igreja mas porque estão noutra dimensão que não está conforme aquilo que são as exigências da vida da própria Igreja. Tem-se feito um esforço muito grande na Igreja para não se cair apenas nesta dimensão assistencialista».

«A Caridade é muito mais exigente que a solidariedade»

«Existe uma aversão à palavra Caridade e tenho dito isto muitas vezes e até em debates com políticos quando fazem alguma coisa boa para as pessoas e dizem “mas eu não fiz isto por caridade” e eu digo: “olhe faz mal”, pois eles fazem esta conexão negativa da palavra porque a Caridade é muito mais exigente que a solidariedade. A solidariedade é uma atitude de um cidadão que respeita o seu concidadão e interessa-se por ele, a Caridade faz-me ver no meu concidadão um irmão e trás exigências muito mais profundas.
É verdade que a Igreja tem ainda que se esforçar mais nesta matéria mas, de qualquer forma, será desonesto todo aquele que não reconhece na Igreja este património de bem-fazer que ao longo dos séculos tem tido. Eu pergunto na nossa realidade actual o que seria de toda esta gente sem este trabalho da Igreja?»

A Igreja tem que urgentemente criar condições para o rejuvenescimento da sua acção social pois está assente em pessoas com uma idade muito avançada. Temos que empenhar mais os jovens. Sabemos que hoje em dia eles têm uma vida muito sobrecarregada a nível académico, não só em actividades esporádicas, mas em actividades mais permanentes.
Temos que investir muito na preparação das pessoas que estão no terreno porque hoje as formas de pobreza não têm nada a ver com as formas de pobreza do passado e são desafios que a Igreja tem estado a procurar enfrentar, com recursos muitas vezes deficitários em relação às exigências mas tem feito esse esforço. Estamos a responder a necessidades primárias mas ao mesmo tempo estamos a preparar programas que levem as pessoas a terem melhor controle da economia doméstica, fazerem mais poupanças, não podemos é passar a vida a dar coisas e também tem que haver a lógica do compromisso de quem recebe, esta coisa do “tudo dado” não é pedagógico. Por exemplo vamos agora iniciar um projecto de um restaurante social mas as pessoas vão ter que pagar alguma coisa por esse serviço, até para se sentirem dignificadas nesse serviço.

Desemprego – problema estrutural da região de Setúbal

Eugénio da Fonseca aponta o desemprego como o problema estrutural da região de Setúbal, «e porquê? Porque a região assenta no trabalho. Nasceu assim e demograficamente explodiu por causa do trabalho. Agora vamos já sentindo problemas relacionados com os idosos, pois estamos com uma curva etária descendente. No desemprego nós somos um pouco o laboratório do país porque nasceu aqui aquilo que hoje se chama o desemprego de longa duração. Mas aqui este tipo de desemprego é muito complicado pois não há meios de subsistência alternativos, como existe noutros pontos do país e que se faz a partir do sector primário. Por outro lado temos agora um grande índice de jovens à procura de primeiro emprego e jovens licenciados. Preocupa-me muito a situação dos jovens, e muitos já estão a emigrar, contudo daqui a uns dois anos esperamos que a economia retome o seu caminho normal e esses jovens estarão certamente na linha da frente para os postos de trabalho pois estão melhor preparados, mas preocupa-me muito também estes desempregados de longa duração que são pessoas com mais de 40 anos e que já não voltam a ter trabalho pois não têm qualificações e se a economia vier tal como estava ela só irá apostar nos jovens. Neste caso criação de auto-emprego pode ser uma solução têm que se criar outras condições. O Governo deve assumir-se como regulador e centralizador da comercialização dessas pequenas empresas, porque se assim não for elas não serão competitivas pois há uma emergência de determinados mercados, como o asiático, e por isso o estado deve assumir a comercialização internacional dos produtos dessas micro-empresas facilita o seu desempenho. Uma das propostas que apresentamos a todos os partidos foi que na criação do auto-emprego, as empresas mais sustentáveis apadrinhem essas novas empresas criando uma solução integrada em que a empresa que apadrinha disponibiliza a formação e outros apoios e depois escoa também os produtos» referiu, «a toxicodependência é também outro problema que identifico a par desta situação que é um pouco de delinquência associada também à existência de muitos Bairros Sociais» acrescentou.

- «Esta crise é sobretudo uma crise de valores»

«Esta crise é sobretudo uma crise de valores. Esta é a minha batalha actual. Até agora centrei-me muito na questão económica e tenho muita pena que o Governo, em Maio de 2008, não tenha acolhido com intenção que a Caritas teve em alertar para o problema, pois tínhamos informações através da nossa rede internacional, que a situação estava mal e que iria piorar e quando fizemos uma comunicação pública e acusaram-nos, e a mim pessoalmente, de alarmismos e de querer incendiar a opinião publica. Chegámos aqui porque dispensámos os valores de sempre porque alguns não davam jeito, porque colidiam com o facilitismo e com a versão de bem estar que criámos. Este país que é um país que está na cauda da Europa em termos de desenvolvimento é dos primeiros no que diz respeito às desigualdades sociais, onde a riqueza se concentra na mão de alguns. Passamos também para uma situação de impunidade total, como deixou de haver essa referência de valores e por isso deixou de haver o sentido de responsabilidade e do bem comum. Gosto muito das associações ambientalistas e de direitos dos animais mas acima de tudo temos que defender o bem comum onde estão as pessoas e os animais. Perdeu-se esse sentido do bem comum e a começar pelos governantes que vão para esta forma de serviço, não com o sentido de serviço mas como uma profissão e a acção política deve ser um serviço. Lamento muito que o poder político esteja muitas vezes subordinado ao capital, deve ser o poder político a mandar no capital.
O capital tomou também conta da Comunicação social e isso é também uma fragilidade para a democracia» salientou.

«Temos que defender os valores. Em primeiro lugar o sentido do outro, pois instalou-se muito o individualismo. O sentido do outro é eu estar bem quando o outro estiver bem. Depois, o sentido da responsabilidade, ou seja, eu também tenho responsabilidade de fazer algo, eu não posso pôr sempre as culpas nos outros e quando eu não tenho que ser chamado à responsabilidade por aquilo que eu não assumi e aí temos que ter uma justiça mais justa porque neste momento a justiça está com os poderosos, é célere para aqueles que não se podem defender e depois há gente que passa ilesa por todo o tipo de crimes. Depois há também o valor da verdade, chegámos aqui porque mentimos muito. E depois temos ainda que reconhecer que temos maltratado muito os valores da família e ela tem que ser o núcleo central da vida em sociedade e não há Estado nenhum que tenha o direito de se arrogar de se substituir à família. Hoje há muitas formas de ser família, e não vou agora aqui discutir isso, mas tem é que haver um núcleo central em que os afectos sejam salvaguardados porque quando há falta de afectos perdem-se os restantes valores».


«Não é o dinheiro que resolve o problema da pobreza, é a educação»

«Se nós criámos uma civilização que criou o bem-estar assente no ter material, o drama das famílias é que as pessoas desunham-se para fazer dinheiro em vista à tal ideia de bem-estar.
Eu estou cada vez mais convencido que não é o dinheiro que resolve o problema da pobreza, é a educação. Eu nasci numa família pobre eu sei o que é chegar da escola e ter na mesa pão com àgua quente, açúcar e ovo. Mas porque, sobretudo a minha mãe, que era conserveira, percebeu que o melhor investimento que podia fazer era investir na educação dos filhos. O meu pai era pescador e nunca teve um barco como era a ambição de todos os seus camaradas na altura, mas investiu muito na nossa educação. Morreram sem serem donos de nada mas deixaram um grande património que foi a nossa educação».

- Um apelo à participação democrática

«Nós estamos todos avisados de que isto ainda nos vai doer mais e eu acho que o grande desafio que está a ser lançado é não cairmos na tentação do desânimo. Há pessoas que vão passar muitas dificuldades e os que não passarem dificuldades tem o dever de estar em atentos às dificuldades dos outros. Por outro lado devemos manter sempre esta certeza de que isto não vai ser o fim mas este foi um sério aviso para mudarmos de vida e contrariar aquilo que temos feito até agora e para começar vamos todos no dia 5 de Junho participar nas eleições».

Rui Nobre

Fonte: https://www.rostos.pt/inicio2.asp?cronica=180141&mostra=2